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quinta-feira

estética

atriz: mia farrow
s.f. Ciência que trata do belo em geral e do sentimento que ele faz nascer em nós; filosofia das belas-artes.
 Gosto de procurar as palavras no dicionário enquanto leio/escrevo - mesmo aquelas cujo seu significado parece demasiado óbvio, sempre duvido se não existe algo que se convencionou em torno dela, um senso comum que tornou a palavra uma viciada semântica em outro significado qualquer. Dessa pequena e fútil mania acabei pesquisando "estética" e não é que... valeu a pena? Como de costume.
 Estava cá eu pensando em como minha casa me deixa às vezes me deixa desconfortável e confusa, por que ela é desorganizada e velha. E agora me sinto como algo em desuso e perdido. Analisar a moradia de uma pessoa pode dizer muito sobre a dita cuja (exceto se ela não pertencer ao lugar, e sim apenas morar lá. São outros pontos) e seus afazeres diários.
 Não é ainda uma metáfora, mas pelos menos dão alguns indicativos que dizem algumas pistas sobre alguém... como a pessoa prepara seu café da manhã e se gosta de café mesmo, se ela deixa louça acumular ou lava na hora, se ela anda de pijamas ou se veste outra coisa mesmo que não vá sair ou se aproveita pra estar nu, se ela vai ver TV (se tiver) por tédio ainda que nunca (ou sempre) assista ou se vai entrar no facebook (não vou repetir todos os caso o tenha) por nada, se vai caçar algum problema na casa para arrumar, alguma planta para regar, se sairia apenas pra comprar um mouse pad, se sabe cozinhar receitas de família ou compra algo para esquentar no microondas, se ela lê e o que ela lê, se ela aproveita um cantinho pra peidar ou se gosta de incomodar quem ela gosta, se a pessoa compra algo porque "fulano vai gostar", se ela faz academia ou se faz caminhada/pedalada/et cetera ou se ela coça mesmo, se ela bebe socialmente ou apenas quando não sabe o que fazer das coisas, se ela veste calças jeans e se usa blusas com botões, se ela gosta de vermelho, se só se nota na aparência quando se apaixona, se ela usa creme nas mãos e se também no corpo, se ela abaixa a cabeça para sorrir, se joga cartas ou xadrez, se a pessoa reclama de reclamações, se ela te dá 20 boa-noites antes de ir embora, se ela pensa antes de dormir no que um japonês está fazendo agora (estudando?) ou se ela aproveita para pensar nas contas para pagar, na pouca sorte que tem e na sua morte iminente.
 Não aquém de estereótipos, muito sobre uma pessoa pode ser percebido pelo seu vestuário, suas expressões, seu modo de curvar os ombros e te olhar - ou evitar te olhar. Quanto cabelo tem e se tem, as roupas que usa e o estado que elas estão, os pelinhos que saem do nariz, o protetor solar, o perfume natural ou floral da pessoa, as unhas limpas e longas, o cacoete do pé, as caretas que faz, o alface no dente. Essas coisas e seus opostos ou suas características peculiares que são ou não excludentes de outras tantas, ou um detalhe que transforma a composição, que o cotidiano revela sobre o ser como um filme revela os segredos dos personagens com o passar da sequência de imagens paradas que dão a ilusão de continuidade.
 É um território perigoso, mas para uma análise de relevância é preciso desfazer-se de preconceitos bobos e sem base - embora por definição um preconceito já seja bobo e sem base. Alguns são convenientes e justamente mais terríveis e nem toda a regra se aplica aos demais seres patéticos humanos... mas é possível que para uma auto-análise seja um modo válido de diagnóstico sobre como você está. Quem nunca se percebeu triste numa epifania após dar conta do desleixo de sua aparência? Eu não, mas... seria útil. E legal.
 Eis que concluo dessa porra toda: as mudanças externas a nós afetam-nos internamente de maneira tão profunda que mudar os móveis da casa, livra-se das coisas velhas, tirar o pó, ajeitar o rasgo na sua camisa, cortar o cabelo, deixar de frequentar lugares visualmente estressantes, mudar a cor do carro, comprar margaridas de supermercado, sorrir mais e enfim preocupar-se com a estética geral das coisas que formam o quadro contínuo de sua vida é preocupar-se com seu bem estar. O meio afeta o ser, simples.


In boxes made of ticky tacky  
And they all look just the same

foto: philippe halsman

 E padrões, cara, joga fora essa coisa. Põe no lixo ou mija em cima. Não tem coisa mais borocoxô que termos as mesmas ideias de belo e ninguém questionar-se sobre. Uma fileirinha de caixas clones umas das outras, todas muito semelhantes com formatos combinando entre si e fazendo tic tac. É inevitável ter dois olhos, mas 'cês curtem olhar da mesma forma? Cores, formas, cheiros podem ter alguma unanimidade psicológica, contudo o seu conjunto sempre tende a causar reações adversas. Basta uma reflexão e a sombra que outrora assombrava, hoje causa riso.
 Não que eu tenha certeza do que falo... certeza não é algo que nos pertença.

5 comentários:

  1. ó, amada explosão de imagens na minha mente!!
    ariscaria dar alguma interpretação, cara Bianca?

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    1. Minhas suposições não chegariam perto, pois sendo uma explosão devem ser muito mais impactante do que sou capaz de chutar. Diria: caveiras?
      Desembuche logo!

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  2. meu erro, não escrevi direito:
    arrisca alguma interpretação sobre alguém? talvez tenha percebido pelas roupas, cabelo, comportamento em geral?

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    1. aaaaah... hum.... arriscaria sim. Mas sobre quem? Pareceu que era para perceber alguém específico, mas como tem a interrogação vou escolher alguém e dizer o que percebi dela a partir disso. Alguém que nós duas conhecemos, então apesar de ter cortado o cabelo no dia que escrevi o post: você.
      Laura. Nunca mudou muito as roupas, sempre confortável, normal e limpa, porque prefere coisas funcionais que façam aquilo que se propõem fazer do que coisas meramente decorativas. Às vezes gosta de caprichar, porém sem excessos - não por relacioná-los à futilidade, talvez só um pouco inconscientemente, mas por achar que não combinam consigo. É agradável com a ideia de aperfeiçoar alguma peça por si mesma do que comprar algo novo por consumismo. Direta, prática, econômica, a versão fêmea e jovem de um pai caricaturado.
      Você mudou seu cabelo radicalmente, mas não por achar o antigo ruim ou feio - era, em alguns aspectos, mais prático e bonito até. Você estava ainda no final de uma transição, isto era uma espécie de reafirmação e manter o corte era uma pequena vaidade que gostava... pois, afinal, ao contrário do que condenam você aprendeu que fazer algumas coisas pela aparência deixava-a mais de bem consigo mesma do que os outros em sua presença mais arrumada. É, entretanto, ciente que nossos ideais de beleza são produtos dos padrões da sociedade e não algo inerente ao que o ser humano considera belo. E, portanto, são ideais questionáveis.
      Seus comportamentos são confusos, talvez por serem simples demais eu frequentemente duvide que não esteja se fazendo de ingênua. Você vem se tornando cada vez mais confiante, e ao contrário do que se diz passiva gosta de estar no controle da sua vida - no caso, no que diz respeito a sua liberdade (suas preferências em geral remetem sempre a essa palavra de alguma forma e você gosta disso). Sente uma necessidade de ser verdadeira e honesta com o que decide. Evita ficar arrependida e receosa como se fossem ervas daninhas pro seu quintal.
      Não sei se era isso que esperava, ou se gostou mais assim ou se não gostou vai ter de lidar com isso. Bjos de qjos da bjork :)

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  3. Lido isso como que comendo torta de morango. Gosto de boas tortas de morango, São suculentas, substanciais, fortes, cada bocada é um morango mais doce ou mais ácido, o que agrada, surpreende.
    Nem de longe esperava o que li. Além de bem escrito, bem fundamentado, cara amiga! Relacionando-me, de dentro p fora e de fora pra dentro, com a estética, aplicando belamente a definição e se mostrando uma senhora esteticista, pelo menos no que me toca.
    Obrigada pela gostosa torta de morango, sorri com ela, me espantei com tamanha descrição.
    Beijos de goiabada para combinar

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