Tudo é expressão, cozinhar é uma maneira de dizer quem você mesmo é. E a escolha de temperos, a dosagem de açúcar e o tempo no forno revelam muito sobre o que gostamos e como fazemos as coisas, o que somos enfim.
Tem essa moça, personagem, que depois de muito resistir em provar sua comida, descobre ser totalmente insossa por dentro. O que está nos seus dizeres acima é "Porque eu me odeio mais que qualquer outra pessoa nesse mundo." e quando eu li essa parte do quadrinho senti enorme compaixão. De quem entende que às vezes é assustador se descobrir, quando você cultiva um sentimento de ódio e repulsa por sua própria pessoa.
Expressar-se é uma forma de colocar para fora o que está dentro de nós. Fazer sobressair o que nos torna particulares e únicos, individuais como somos. Nem sempre é bonito. Por que não somos pessoas bonitas ou feias, certas ou erradas, alegres ou tristes.
Tudo existe dentro de nós em eterna dissonância.
Sinto falta de escrever. Parar e tentar me ler, colocar em
caracteres o que está bagunçado na minha cabeça. E não é cabelo. Também,
mas não é no caso. Estou confusa, me sinto confusa. Fios de pensamento em confusão formando nós.
Entre todos
os prazeres meus, deixei a escrita esquecida em minha rotina. Ao mesmo
tempo, estou me expressando doutras tantas formas que eu comecei a
aprender algo bom sobre mim mesma.
Talvez eu esteja gostando de mim e isso é estranho, inusitado. Nesse caminho de desprezo eu só pude encontrar o amor próprio.
E perdidamente alegre comigo mesma continuo minha jornada atrás do que verdadeiramente interfere na minha vida.
O primeiro título era passividade, mas me pareceu ter uma conotação de sofrer ação para não reagir a ela quando a inércia é anterior. Na minha mente, pelos menos, soa assim. Não vejo a graça e nunca acho a motivação necessária para evitá-la ou querer mudar algo que na maioria das vezes não encontro razão de fazer.
E, bom, tendo escrito o primeiro parágrafo tantos meses atrás não encontro mais um caminho para continuar a escrever, ainda tornando o texto coerente, se não apenas aceitar minha preguiça e deixar-me amarrar.
Por que não?
Seria o amor uma concepção de ideias coincidentes entre um conjunto de pessoas com distintas formações e que mesmo assim não há divergências que mudem seu significado? Vejamos... "quem ama não faz isso", "amor de verdade é para sempre", "perdoar é o que o amor faz", "só traí quem não ama mais o parceiro", "chorar e sofrer por amor é sinal de amor verdadeiro" e etcetera, tal qual há quem julgue o amor como efêmero e sem limites. Nem concordar em discordar parece admissível quando se trata desse assunto.
Preencha aqui seu formulário de amor, faça os exames e descubra se ele é real ou se você é demente.
foto: man ray
Tentar destrinchar um sentimento como amor é um esforço sem fim. Afinal, tentamos colocar em palavras o que por natureza é mudo, como a alegria do sorriso e a irracionalidade da raiva, sentimentos esses que passam pelo nosso peito sem querer dar explicações de onde estiveram e para onde vão, se voltam e quando voltam. É sempre fugaz e surpreendente, mas o amor também não lhe deve satisfações, apenas é visitante muito semelhante à felicidade que acomete principalmente aqueles com coração mais sensível. São intraduzíveis e por isso mesmo tentamos falar a língua dos sentimentos...
É possível fazer medidas do amor? Você amou primeiro seu pai ou sua mãe? De quem gosta mais? Como saber que sentiu palpitar o mais puro sentimento e não se enganar com outro? Quando surgiu o beijo? Vale mais o amor dos amigos ou o amor de uma única pessoa para qual jurou amor eterno? Como prometer algo que por experiência própria já sentiu não o controlar? Seguir por um ideal é diferente de seguir por amor - a diferença, imagino, que seja da racionalidade para a loucura. Ele nasceu para ser livre, selvagem, e para ser dos outros, vários e vários outros. Isso pois é um sentimento, várias pessoas são certas para recebê-lo. Que vão e vem e se acabam num sopro que recomeça numa nova esquina que você cruza para comprar pão. A graça é que você nunca saberá se foi um amor ou uma alegria ou ainda um arroto, se foi só para você ou se foi recíproco. Mas acredite, ué, é necessário acreditar que se ama, que se ama diferente diferentes pessoas, mas lembre-se: é um salto no escuro.
Enfim, isso sou eu, você na real que sabe da tua vidinha querida, deixo apenas essa advertência do Guia.
Gosto de procurar as palavras no dicionário enquanto leio/escrevo - mesmo aquelas cujo seu significado parece demasiado óbvio, sempre duvido se não existe algo que se convencionou em torno dela, um senso comum que tornou a palavra uma viciada semântica em outro significado qualquer. Dessa pequena e fútil mania acabei pesquisando "estética" e não é que... valeu a pena? Como de costume.
Estava cá eu pensando em como minha casa me deixa às vezes me deixa desconfortável e confusa, por que ela é desorganizada e velha. E agora me sinto como algo em desuso e perdido. Analisar a moradia de uma pessoa pode dizer muito sobre a dita cuja (exceto se ela não pertencer ao lugar, e sim apenas morar lá. São outros pontos) e seus afazeres diários.
Não é ainda uma metáfora, mas pelos menos dão alguns indicativos que dizem algumas pistas sobre alguém... como a pessoa prepara seu café da manhã e se gosta de café mesmo, se ela deixa louça acumular ou lava na hora, se ela anda de pijamas ou se veste outra coisa mesmo que não vá sair ou se aproveita pra estar nu, se ela vai ver TV (se tiver) por tédio ainda que nunca (ou sempre) assista ou se vai entrar no facebook (não vou repetir todos os caso o tenha) por nada, se vai caçar algum problema na casa para arrumar, alguma planta para regar, se sairia apenas pra comprar um mouse pad, se sabe cozinhar receitas de família ou compra algo para esquentar no microondas, se ela lê e o que ela lê, se ela aproveita um cantinho pra peidar ou se gosta de incomodar quem ela gosta, se a pessoa compra algo porque "fulano vai gostar", se ela faz academia ou se faz caminhada/pedalada/et cetera ou se ela coça mesmo, se ela bebe socialmente ou apenas quando não sabe o que fazer das coisas, se ela veste calças jeans e se usa blusas com botões, se ela gosta de vermelho, se só se nota na aparência quando se apaixona, se ela usa creme nas mãos e se também no corpo, se ela abaixa a cabeça para sorrir, se joga cartas ou xadrez, se a pessoa reclama de reclamações, se ela te dá 20 boa-noites antes de ir embora, se ela pensa antes de dormir no que um japonês está fazendo agora (estudando?) ou se ela aproveita para pensar nas contas para pagar, na pouca sorte que tem e na sua morte iminente.
Não aquém de estereótipos, muito sobre uma pessoa pode ser percebido pelo seu vestuário, suas expressões, seu modo de curvar os ombros e te olhar - ou evitar te olhar. Quanto cabelo tem e se tem, as roupas que usa e o estado que elas estão, os pelinhos que saem do nariz, o protetor solar, o perfume natural ou floral da pessoa, as unhas limpas e longas, o cacoete do pé, as caretas que faz, o alface no dente. Essas coisas e seus opostos ou suas características peculiares que são ou não excludentes de outras tantas, ou um detalhe que transforma a composição, que o cotidiano revela sobre o ser como um filme revela os segredos dos personagens com o passar da sequência de imagens paradas que dão a ilusão de continuidade.
É um território perigoso, mas para uma análise de relevância é preciso desfazer-se de preconceitos bobos e sem base - embora por definição um preconceito já seja bobo e sem base. Alguns são convenientes e justamente mais terríveis e nem toda a regra se aplica aos demais seres patéticos humanos... mas é possível que para uma auto-análise seja um modo válido de diagnóstico sobre como você está. Quem nunca se percebeu triste numa epifania após dar conta do desleixo de sua aparência? Eu não, mas... seria útil. E legal.
Eis que concluo dessa porra toda: as mudanças externas a nós afetam-nos internamente de maneira tão profunda que mudar os móveis da casa, livra-se das coisas velhas, tirar o pó, ajeitar o rasgo na sua camisa, cortar o cabelo, deixar de frequentar lugares visualmente estressantes, mudar a cor do carro, comprar margaridas de supermercado, sorrir mais e enfim preocupar-se com a estética geral das coisas que formam o quadro contínuo de sua vida é preocupar-se com seu bem estar. O meio afeta o ser, simples.
In boxes made of ticky tacky
And they all look just the same
foto: philippe halsman
E padrões, cara, joga fora essa coisa. Põe no lixo ou mija em cima. Não tem coisa mais borocoxô que termos as mesmas ideias de belo e ninguém questionar-se sobre. Uma fileirinha de caixas clones umas das outras, todas muito semelhantes com formatos combinando entre si e fazendo tic tac. É inevitável ter dois olhos, mas 'cês curtem olhar da mesma forma? Cores, formas, cheiros podem ter alguma unanimidade psicológica, contudo o seu conjunto sempre tende a causar reações adversas. Basta uma reflexão e a sombra que outrora assombrava, hoje causa riso. Não que eu tenha certeza do que falo... certeza não é algo que nos pertença.
Meus ouvidos ficam "entupidos" por causa da pressão enquanto estou viajando e bocejar parece abri-los. Logo pensei que se quando eles fecharem novamente, uma simulação de bocejo não poderia resolver o problema da mesma forma...
foto: sofia barlocco
Daí eu percebi que sorrisos para fotografias também são comumente meras simulações de sorrisos e por isso não ficam tão espontâneos e charmosos... ainda que talvez mais bonitos (capturar um sorriso espontâneo com a câmera é tipo pegar uma borboleta pelas asas sem machucá-la ou uma feliz coincidência te parar no meio da rua numa quarta-feira). Ou aquela reação pré-fabricada de agradecer educadamente algum presente ruim e feio que ganhou apenas por ele ter vindo com boas intenções, o doce fingimento da boa educação é uma gentileza legítima.
Eu não levo muito jeito para simular ou talvez eu seja tão boa nos meus fingimentos corteses e fofos que eu mesma caio frequentemente na minha própria interpretação e pense que são verdadeiras e naturais interações com os demais seres vivos. Quando eu tento improvisar simpatia industrializada num desafio interpessoal de ser um ser social, eu fico nervosa e falo aleatoriedades com, por exemplo, aquela menina que quer jornalismo, te sorri amarelo, não sabe o nome e você nunca mais verá na vida.
É assim que começamos, certo? Um cumprimento, uma cortesia e uma conversa. "Olá, eu sou uma pessoa que não se afeiçoa fácil com as outras pessoas." Muito mal, já ia começando a te mandar para a puta que pariu... e provavelmente és digno de todo o amor que há em mim, certo?
foto: robert mapplethorpe
Eu queria que o fosse, como uma dessas flores capturadas num momento que de tão arrepiadas estarem querem que eu as cheire e as toque e as ame.
- Oh, Robert, é como se elas estivessem nuas.
- Não estão?
- Eu posso publicá-las sem colocar um filtro de idade, certo?
Deixando de lado a baboseira duma conversa imaginária, esse será um espaço ou um fazer que irei reservar particularmente para as coisas ínfimas, porém apreciáveis, da minha vidinha e que não tem a relevância necessária para ser contata verbalmente para as outras pessoas.
Poderia eu inventar uma motivação mais bonita para iniciar nosso relacionamento? Não. Antes de tudo sou eu escrevendo para mim. Não faço roteiros para nós duas. Apenas escrevo o que eu sinto e sinto enquanto eu escrevo.
É um lugar para os dias futuros, e como 'tou pouco me fodendo para datas não hei de esperar o primeiro dia do ano. E como canta, num volume baixo, a Gal Costa nos fones nos meus ouvidos:
não vou ser mais triste vou mudar daqui pra frente e a minha escrita vai ser muito diferente a filosofia vou mudar em minha mente pois agora eu vou recomeçar