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terça-feira

simulação

Meus ouvidos ficam "entupidos" por causa da pressão enquanto estou viajando e bocejar parece abri-los. Logo pensei que se quando eles fecharem novamente, uma simulação de bocejo não poderia resolver o problema da mesma forma...

foto: sofia barlocco
Daí eu percebi que sorrisos para fotografias também são comumente meras simulações de sorrisos e por isso não ficam tão espontâneos e charmosos... ainda que talvez mais bonitos (capturar um sorriso espontâneo com a câmera é tipo pegar uma borboleta pelas asas sem machucá-la ou uma feliz coincidência te parar no meio da rua numa quarta-feira). Ou aquela reação pré-fabricada de agradecer educadamente algum presente ruim e feio que ganhou apenas por ele ter vindo com boas intenções, o doce fingimento da boa educação é uma gentileza legítima.

Talvez todo o ritual de passagem para o ano novo seja uma simulação daquilo que queremos e pouco fazemos para torná-lo uma imagem real e concreta no tempo futuro. Não? Às vezes sinto que quero uma confirmação das minhas divagações para sentir o conforto de estar acima duma armadilha social viciante, mas na maioria das vezes tenho preguiça de tentar comprová-las ou buscar evidências passadas na minha memória... afinal pacientemente a vida me ensinará como a viver da pior e mais divertida forma, não preciso ter convicções para atrapalhar (ainda que tenha, snif).

Eu não levo muito jeito para simular ou talvez eu seja tão boa nos meus fingimentos corteses e fofos que eu mesma caio frequentemente na minha própria interpretação e pense que são verdadeiras e naturais interações com os demais seres vivos. Quando eu tento improvisar simpatia industrializada num desafio interpessoal de ser um ser social, eu fico nervosa e falo aleatoriedades com, por exemplo, aquela menina que quer jornalismo, te sorri amarelo, não sabe o nome e você nunca mais verá na vida.

Eu não preciso disso.

2 comentários:

  1. Por um instante, pensei que conhecesse a menina no meio das bolhas. Justamente por causa do sorriso. Ela me parece estar se divertindo de verdade, assim como minha torpe amiguinha de infância.

    A gente aprende a viver simulando, mas nunca a deixar as convicções de lado. Mesmo a mais desprendida das pessoas se agarram a elas com unhas e dentes. Talvez sejam as únicas coisas verdadeiramente nossas, nesse mundo pré-fabricado. Convenhamos, nossas simulações e, sobretudo, as dos outros são quase previsíveis. O sorriso na fotografia, a reação gentil ao receber um presente... No fundo, estamos esperando por elas. Elas nos oferecem o conforto e a segurança de não ficar com cara de tacho depois.

    Só é uma pena que as minhas simulações sejam bem falhas. Eu tenho a sensação de que todo mundo, menos eu, aprendeu a simular com maestria.


    Fugindo um pouco, talvez nem tanto... Já leu Ítalo Calvino? Fora uma jornada de estudos das "6 Propostas" dele, o único livro que li foi "Se Um Viajante Numa Noite de Inverno". (Vergonha.) Tem um pedacinho, já no final, quando o protagonista conversa com um escritor sobre a verdadeira aventura que ele está vivendo em relação aos livros que lê. Mesmo que ache as leituras verdadeiramente interessantes, ele não consegue concluí-las pois depara-se com uma história diferente sempre que abre um livro. E escritor diz que o caso do protagonista lhe dá esperanças; sempre que pega um romance, se encontra lendo outra vez o mesmo livro que já leu cem vezes.

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  2. Ah, não, nem ela nem a flor, todas estranhas e usadas sem seu respectivo consentimento no blog. Também acho que parece estar se divertindo verdadeiramente. É um belo sorriso.

    Pode parecer verdade, mas é mentira isso de não abandonar convicções. Ou talvez eu que esteja sendo dura demais nos termos... apenas mudaram, se adaptaram ou são flexíveis demais de acordo com o que a situação manda. Mas não importa, é apenas uma divagação hipotética sobre pessoas invisíveis. É, eu também espero por essas simulações gentis, porém justamente por isso gosto mais quando alguém quebra elas. Gosto... é como se os próximos sorrisos fossem mais confiáveis, para mim.

    Somos duas simuladores amadoras, só sei simular uma vida no The Sims... É que eles jogam a real life.

    Nunca li, mas há quatro anos meu professor de ilustração recomendou justamente esse livro e eu comprei por confiar no gosto dele... e você, bom, me deu um bom empurrão para querer lê-lo! Mas estou terminando todos os vols do Guia, o livro do Kevin, uns dois outros de contos... mas eu posso atropelar leitura como de praxe. :)

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